Há vida no 303

Há vida no 303

(Esse artigo que escrevi saiu hoje no Jornal O Povo, numa matéria sobre Mídia Radical. Aqui ele está completo, com as 3 linhas MUITO IMPORTANTES que foram cortadas no texto impresso. Foi um convite lindo da Júlia Lopes, escrevi correndo e com uma quentura no coração lembrando da conversa com a Camila Chaves sobre o tal apartamento e do trabalho de outra Camila, a Alves, que espalhou trechos de carta nos muros da cidade. )

 

Uma colega de sala me contou uma história ótima que não lembro agora se era plano ou realidade. Imagine um condomínio de apartamentos. Blocos idênticos, aqueles silêncios constrangidos na espera pelo elevador e o olhar da síndica para as cadeiras vazias nas noites de reunião.  Tudo corria como corre na maioria dos prédios na maioria das grandes cidades até que um dia, eis que surge, sob uma das janelas e visível lá da rua, do outro lado da calçada, um cartaz onde se lê: “HÁ VIDA NO 303”.

Ao estudar para a seleção do mestrado me deparo com um livro grande, pesado e famoso para quem é da área de comunicação: Mídia Radical, de John Downing. Lá ele fala de várias maneiras nas quais a mídia radical acontece no mundo todo. O tamanho do livro e o termo podem assustar, mas que nada. Falando para quem não estuda comunicação, mas como qualquer ser humano, se comunica o tempo todo, é possível reconhecer em si e em parte de sua rotina isso do que falamos. Vivemos rodeados de mídia e de radicalidade, entendendo mídia como meios de comunicação (voz, imagens, textos, gestos) ou como veículos (jornais, TV, rádio, internet) e entendendo radicalidade como a clara e declarada oposição ao que está posto, ao que é senso comum, ao que é maioria. Vivemos numa abundância de estímulos audiovisuais cuja mensagem se desdobra em várias: “Não saia daí, voltamos já”, “Aproveite a promoção!”, “Diga não às drogas”, “Jesus vai voltar”, “Traga a vasilha” ou “Já temos a vasilha!” “Vote em fulano”, etc. Todas parecem convergir para a obediência entusiasmada, a prudência amedrontada, a competição por status e o consumo sem fim.

Mídia radical tem a ver com parar de apenas receber e começar a produzir e espalhar mensagens. É preciso olhar com atenção este primeiro movimento: parar. Ele é radical, raro e de beleza sublime. Pode ser sem glamour e inesperado, na hora em que o sinal fecha e você espia para fora do ônibus e enxerga o mesmo muro de outro jeito e nele está escrito: “Aquela carta não chegou.” E do lado um envelope simples. De onde veio essa mensagem, que carta era essa, quem colocou isso no muro, porquê? É diminuindo um pouco o ritmo cotidiano da vida que começamos a perceber uma outra forma de transmitir mensagens – e outras formas de mensagens. São mensagens íntimas, artísticas ou/e políticas, que se assemelham a mensagens na garrafa que é jogada ao mar. Não há fábricas de garrafas-com-mensagens-jogadas-ao-mar. Cada garrafa tem uma história, cada papel escolhido, cada mensageiro aparentemente solitário tem sua história, sua mensagem. A mídia radical é um conjunto de possibilidades de dizer o que você precisa dizer para iguais aparentemente não tão iguais. Quando criança é irresistível uma parede branca, uma folha intacta, um silêncio, um espaço vazio. Ocupamos, nos espalhamos, riscamos, gritamos, deixamos rastro do que sentimos, habitamos. É natural a vontade de se expressar, de se dizer o que pensa e sente e quer. Uma hora se torna “inconveniente”, olha só. Crescemos e aprendemos a nos comportar e a, quietinhos, ouvir. Aparece muita gente querendo ensinar de algum jeito o que falar, como falar, para quem falar. E que isso de parar, pensar, começar a escrever nas paredes e nos muros o que pensou, de sair nas ruas com megafones, de publicar zines e sair entregando a desconhecidos, de dançar em público sem música, de riscar as próprias camisas e sapatos e de escolher não ter TV em casa é algo muito estranho.

Mas aí um dia se descobre que, assim como no apartamento 303, também há muita vida no mundo, e por isso, porque estar realmente vivo é querer se comunicar e há mais gente lá fora espalhando de vários jeitos as suas mensagens fora das garrafas, cidade adentro.

 

Fernanda Meireles é mestranda em Comunicação pela UFC, zineira e arte-educadora.

Sobre esputinique

Zineira desde 96, fazendo oficinas de zines desde 2000, o Zine-se desde 2003, estudando tudo isso desde que as fichas caíram (e continuam a cair). Graduada em Letras/Inglês pela UECE, especialista em Arte-Educação pelo IFCE e mestranda em Comunicação Social pela UFC. Diretora geral da ONG ZINCO-Centro de Estudo, Pesquisa e Produção em Mídia Alternativa. Escrevendo sobre, pesquisando e criando, com mais gentes destemidas, a Zineteca de Fortaleza.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s