Conheci Bruno, o Frika, pela cantina do CH da UECE. Ele estudava japonês, acho. Andava com a Marília Oliveira, um barato. Sempre com um sorrisão, umas piadas infames, uma delicadeza incrível e um jeito garboso, logo ganhou o apelido de Reizinho. E entre 2004 e 2006 ele fez o Alabastros, um zine de bolso com desenhos dele e pequenos textos, umas legendas. Eu recebia pelo correio e ficava hooooras lendo. Como eu podia ficar hoooras lendo um zine tão pequeno e com textos tão mínimos? Porque os significados eram abertos, escancarados, ainda assim uns enigmas. Como um jogo.
Seminário Cabeças de Papel 3 – Vamos?
Há vida no 303
(Esse artigo que escrevi saiu hoje no Jornal O Povo, numa matéria sobre Mídia Radical. Aqui ele está completo, com as 3 linhas MUITO IMPORTANTES que foram cortadas no texto impresso. Foi um convite lindo da Júlia Lopes, escrevi correndo e com uma quentura no coração lembrando da conversa com a Camila Chaves sobre o tal apartamento e do trabalho de outra Camila, a Alves, que espalhou trechos de carta nos muros da cidade. )
Uma colega de sala me contou uma história ótima que não lembro agora se era plano ou realidade. Imagine um condomínio de apartamentos. Blocos idênticos, aqueles silêncios constrangidos na espera pelo elevador e o olhar da síndica para as cadeiras vazias nas noites de reunião. Tudo corria como corre na maioria dos prédios na maioria das grandes cidades até que um dia, eis que surge, sob uma das janelas e visível lá da rua, do outro lado da calçada, um cartaz onde se lê: “HÁ VIDA NO 303”.
Ao estudar para a seleção do mestrado me deparo com um livro grande, pesado e famoso para quem é da área de comunicação: Mídia Radical, de John Downing. Lá ele fala de várias maneiras nas quais a mídia radical acontece no mundo todo. O tamanho do livro e o termo podem assustar, mas que nada. Falando para quem não estuda comunicação, mas como qualquer ser humano, se comunica o tempo todo, é possível reconhecer em si e em parte de sua rotina isso do que falamos. Vivemos rodeados de mídia e de radicalidade, entendendo mídia como meios de comunicação (voz, imagens, textos, gestos) ou como veículos (jornais, TV, rádio, internet) e entendendo radicalidade como a clara e declarada oposição ao que está posto, ao que é senso comum, ao que é maioria. Vivemos numa abundância de estímulos audiovisuais cuja mensagem se desdobra em várias: “Não saia daí, voltamos já”, “Aproveite a promoção!”, “Diga não às drogas”, “Jesus vai voltar”, “Traga a vasilha” ou “Já temos a vasilha!” “Vote em fulano”, etc. Todas parecem convergir para a obediência entusiasmada, a prudência amedrontada, a competição por status e o consumo sem fim.
Mídia radical tem a ver com parar de apenas receber e começar a produzir e espalhar mensagens. É preciso olhar com atenção este primeiro movimento: parar. Ele é radical, raro e de beleza sublime. Pode ser sem glamour e inesperado, na hora em que o sinal fecha e você espia para fora do ônibus e enxerga o mesmo muro de outro jeito e nele está escrito: “Aquela carta não chegou.” E do lado um envelope simples. De onde veio essa mensagem, que carta era essa, quem colocou isso no muro, porquê? É diminuindo um pouco o ritmo cotidiano da vida que começamos a perceber uma outra forma de transmitir mensagens – e outras formas de mensagens. São mensagens íntimas, artísticas ou/e políticas, que se assemelham a mensagens na garrafa que é jogada ao mar. Não há fábricas de garrafas-com-mensagens-jogadas-ao-mar. Cada garrafa tem uma história, cada papel escolhido, cada mensageiro aparentemente solitário tem sua história, sua mensagem. A mídia radical é um conjunto de possibilidades de dizer o que você precisa dizer para iguais aparentemente não tão iguais. Quando criança é irresistível uma parede branca, uma folha intacta, um silêncio, um espaço vazio. Ocupamos, nos espalhamos, riscamos, gritamos, deixamos rastro do que sentimos, habitamos. É natural a vontade de se expressar, de se dizer o que pensa e sente e quer. Uma hora se torna “inconveniente”, olha só. Crescemos e aprendemos a nos comportar e a, quietinhos, ouvir. Aparece muita gente querendo ensinar de algum jeito o que falar, como falar, para quem falar. E que isso de parar, pensar, começar a escrever nas paredes e nos muros o que pensou, de sair nas ruas com megafones, de publicar zines e sair entregando a desconhecidos, de dançar em público sem música, de riscar as próprias camisas e sapatos e de escolher não ter TV em casa é algo muito estranho.
Mas aí um dia se descobre que, assim como no apartamento 303, também há muita vida no mundo, e por isso, porque estar realmente vivo é querer se comunicar e há mais gente lá fora espalhando de vários jeitos as suas mensagens fora das garrafas, cidade adentro.
Fernanda Meireles é mestranda em Comunicação pela UFC, zineira e arte-educadora.
pouco?
Enquanto tudo
Retomamos as reuniões de planejamento, compramos as passagens de quem vem da equipe da Fanzinothèque, o Fórum da Zineteca o Seminário Cabeças de Papel 3, cujo tema será “Zines como Patrimônio Mateiral e Imaterial.” acontecerá aqui em Fortaleza em 2 lugares: O Centro Cultural banco do Nordeste (CCBNB) e o CUCA.
Fico feliz que este blog, mesmo tendo estado muito parado por um ano ou mais ou quase, ainda seja visitado. Farei por onde ele merecer estas visitas, responderei os comentários.
Ontem houve um encontro lindo no CUCA. Crianças, adolescentes, zineiros, professores e educadores conversando sobre zines. De verdade, mesmo, todo mundo falando e se entendendo! Acho que logo que todo mundo entrou na biblioteca e achou seu lugar e olhou ao redor e viu quanta gente diferente entre si estava lá aconteceu um segundo de muita surpresa. Eu imaginei que ia ter gente que ia querer sair pra visita guiada ao invés de ficar lá falando sobre zines. Mas não! Conversamos todos até maia hora a mais que o combinado.
Conto mais depois, hoje é domingo e dias de folga estão raros. Trabalho, pesquisa e diversão com zines se fazem presentes em todos os meus dias. Só não vinha aqui contar por estar existindo/descansando/lendo um zine acolá no sofá.
Ugra Zine Fest – aqui vamos nós!
Então tem um povo lá em São Paulo que se desinquietou e resolveu fazer um Anuário de Zines mapeando a produção atual no Brasil. E não só, depois de coletar uma rruma de zines, eles vão fazer um evento de 2 dias pra juntar o povo de carne e osso envolvido na história – quem não puder ir pode mandar zines, ainda! Desde que voltei de viagem, em agosto, venho seguindo os passos dessa turma pelo blog: http://ugrapress.wordpress.com (muito bacana)
E agora vamos nos conhecer de pertinho. Dia 12 vou estar no debate cujo tema é “Qual o futuro dos zines?” (aceito sugestões alencarinas, podem colocar lá nos comentários que dou o recado) e aproveitar pra conhecer de perto o Gazy Andraus (que também está no livro sobre zines que a Cellina Muniz organizou aqui em Fortaleza), o Márcio Sno (que tá fazendo um documentário chamado Fanzineiros do Século Passado) e mais gente que escrevia pro zine-catálogo Esputinique entre 2002 e 2005.
O grande lance também é poder estar num evento de zines em outra cidade brasileira além de Fortaleza. Quando estive em São Paulo, há 2 anos, só encontrei zines na loja HQ Mix – papo bom com o casal dono de lá! – e num papo com Eduardo Manzano – não cheguei a ver seu arquivo. Onde eles estavam? Digo, esses zines e zineiros que vão estar no evento? Há também um palpite que quero saber se faz sentido:
Será que quando a gente começa a convidar pra algo maior é que o povo se anima e volta a fazer zine?
E aqui vai o blog criado especialmente para o primeiro Ugra Zine Fest: http://uzf2011.wordpress.com/
Vida longa!
Zine-se na Casa de Juvenal Galeno! – 20 nov. sábado, 16h
(clica na imagem pra ver o cartaz ampliado que o Gladson Caldas fez!)
Finalmente, agora vai! Amanhã, sábado, 4 da tarde em diante fazineiros e curiosos adentram essa casa linda e antiga, escondida no zumzumzum do centro da cidade e que agora, depois duma reforma grande, está aberta ao público. Juvenal Galeno foi escritor e a casa é também museu, (a maioria dos móveis está lá desde o começo do século), além de guardar histórias ótimas da cidade, pouco conhecidas de todo mundo. Fica na General Sampaio, um pouco antes da entrada dos jardins do Theatro José de Alencar. E lá dentro reina um silêncio e som de árvore balançando…
Olha: http://picasaweb.google.com/fernandaameireles/ExpoTjaIdadeMediaECasaJuvenalGaleno#
Quem vai pro Zine-se? A gente nunca sabe. O que tá garantido é um encontro bom, um bate papo sobre zines, mesmo que estes sejam relançamentos. Tirem aqueles originais da gaveta, meu povo!
Ah, quem sabe não rola um cafezinho também?
Narrativas da Cidade Ilustrada em Zines
Esse é o nome da oficina que eu e o Ramon daremos juntos no Centro Cultural Dragão do Mar! Já estou toda feliz e os motivos são muitos. Vou listar alguns:
1. Ramon Cavalcante é desenhista/ilustrador/era do T.R.E.M.A. (informe-se) e eu vou ter o Prazer de trabalhar com ele de novo e com um tema que adoramos: Fortaleza. Em março desse ano nós lançamos uma coleção de placas chamada Cidades Internas. Olha: http://picasaweb.google.com/fernandaameireles/CidadesInternas# Desde então a gente sabia que essa parceria ia render mais e mais.
2. O lugar da oficina é na ex-Capitania dos Portos, aquele quarteirão ao lado do Chopp do Bixiga, onde agora funciona o tão esperado e bem-vindo Núcleo de Formação do Dragão, com uma lista de oficinas bacanas e gratuitas todo mês. (Como eu trabalhei um tempinho falando com navios, sempre tive curiosidade de entrar naquele prédio).
3. A oficina será noturna, ou seja, mesmo quem trabalha e estuda pode fazer!
4. Um breve resumo da minha história com as oficinas: há 10 anos dou oficinas de zine, em muitos lugares diferentes. Por 2 anos e 1/2 trabalhei direto no Centro Cultural Bom Jardim e foi muito bom para saber o que acontece com uma comunidade imersa em oficinas CONTÍNUAS de zine. Deixei o CCBJ (lamentandooo) no fim de 2009 e fui acolá (www.fanzino.org). Voltei em julho e desde então essa é a segunda oficina que dou esse ano. A primeira foi na Livraria Cultura. Oficina de zine com turma aberta e mista é muito legal e eu tava com saudade desse formato! Outra coisa é que depois dessa grande pausa sem ficar dando uma oficina atrás da outra, tive tempo pra pensar sobre elas. E isso vai mudando o jeito de trabalhar.
5. Fanzineiros célebres de Fortaleza, como a Roberta Felix e o Estácio Facó, estão muito a fim de participar. Crescemos e aprendemos juntos em oficinas, na ONG Zinco e nos Zine-ses… e continuamos aprendendo! Depois de escrever o projeto de mestrado isso tem ficado cada vez mais claro pra mim. Investigamos a cidade ao mesmo tempo que a reinventamos JUNTOS.
6. Quem nunca fez zine é igualmente bem-vindo, lóugico! Uma turma misturada é um mais que ótimo jeito de começar!
Então, a oficina terá 2 módulos, o primeiro comigo e o segundo com o Ramon. Comigo, as narrativas, com o Ramon, as formas de apresentá-las ilustradas. Isso não é uma oficina de HQ, ok? Quadrinhos são apenas MAIS uma forma de contar uma história para além das palavras e estão no programa, claro. Mas tem muito mais na parte do Ramon. Faremos pelo menos 2 zines coletivos e seus exemplares serão divididos entre os participantes da oficina – cada um leva um bolo de zine pra distribuir por aí! As histórias podem ser reais ou inventadas. Sua ou dos outros. Vamos criar em 2 zines um tipo de mapa que revela um pouquinho de cada Fortaleza de dentro e de fora da gente. Uma Cidade Interna & Externa. Nossa.
Data: 16 de novembro a 26 de novembro
Hora: 18:30 – 21:30
20 vagas
Para se inscrever, lê aqui e manda e-mail pro dragão, ó:
http://formacaodragaodomar.blogspot.com/2010/10/nova-oficina-narrativas-urbanas.html
entre as danças, um beijo de língua
Como eu ia dizendo… Fortaleza é uma cidade em que os zines surgem nos lugares mais inesperados – e muito bem-vindos!
Esse mês está acontecendo a Bienal Internacional de Dança do Ceará/De Par em Par, com uma programação de endoidecer qualquer um – inclusive eu, que estaria no meio, se não estivesse que estar escrevendo muito. O fato é que um rapaz muito destemido chamado Rodrigo Oliveira (já falei dele aqui antes mais de uma vez) está na produção e encabeça uma turma que está fazendo a cobertura da Bienal de Dança através de zines!
E sabe qual o título que deram para eles?
E acabo de espiar aqui que já estão é no quarto Beijo de Língua. Uau.
teoria e prática brigam muito, aqui
“Não há forma errada para se fazer um zine. Zines podem ser feitos por qualquer pessoa que tenha algo a dizer.” (tá escrito naquele papelzinho mínimo lá na parte de cima da foto.
Esse é um dos zines expostos na Woman´s Library, em Londres, por onde passei em junho. Hoje deu uma vontade de conversar com o Andy, cara muito legal que é o responsável atualmente pelo acervo de zines de mulheres que eles estão começando a criar. Saiba mais aqui:
http://www.londonmet.ac.uk/thewomenslibrary/searchthecollections/printed-collections/zines/zines.cfm
Tou escrevendo sobre zines e lá vem de novo a vontade de largar a teoria e mergulhar gostosamente na prática.
Mas sou forte! Enquanto cuido aqui assim, teoricamente, convido vocês para a melhor parte, a criação!
É que vem um Zine-se por aí, no final desse mês de outubro…

















